29.12.10
Muro
Tenho saudades de umas mãos gastas pelo tempo. Uns dedos atrofiadas do reumatismo. Enrugados. Umas unhas velhas que resistem aos séculos de mudança. Tenho saudades dos passos lentos. Arrastados. Dos gemidos silenciosos. Dos pés sempre gelados. Do cheiro da pomada. Sinto falta dela. Todos os dias! Lembro aquele último olhar porque já não foi capaz de se despedir com palavras. Lembro a ternura (e a paz) com que partiu. Depois do meu carinho. Das minhas juras de amor que guardo sempre para o fim.
Ruiu o meu velho muro. A única estrutura que achei nunca fosse ceder. Mas cedeu. E depois disso, tudo ficou, assustadoramente, claro.
“Iludimo-nos julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre”…
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