23.12.10

Natal...1º capítulo




Eu sou uma “menina de Natal”. Aprendi a gostar tanto dele que nem depois de ter passado um Natal de tabuleiro nos joelhos, a comer  bife com batatas fritas lhe ganhei rancor. Nesse ano, em 2002, não tive presentes (eu que gosto tanto...). Não fiz a árvore. Não comi o calendário dos chocolates. Não senti o cheiro das rabanadas. Não me lembrei, sequer, que era Natal. Queria que passasse depressa, como se fosse uma corrida contra o tempo e mais uma batalha ganha. Depois do tal milagre (que percebi, não ia acontecer), dirigi as minhas preces apenas para... tê-lo comigo no Natal. E tive. E esse foi o meu presente... Ainda o tive comigo. No Ano Novo, ainda encostamos as flutes. Contidos. Porque já não se impunham votos de saúde, mas de “boa viagem”...
Mas, como dizia, sou uma “menina de Natal”. Tenho as melhores recordações de todos os meus Natais. É verdade que o (meu pai) Natal sempre foi generoso e manifestou todo o empenhamento em satisfazer os caprichos da menina (e única) lá de casa. O meu pai chegou a percorrer comigo três shoppings na véspera da véspera para encontrar o casaco que me enchesse as medidas. Na casa dos meus pais, fazíamos a árvore no primeiro degrau das escadas e depois cada degrau pertencia a um “sapatinho”. Que bom lembrar aquelas escadas cheias de prendas! Mas, com o tempo, eram cada vez menos os “sapatinhos”. Já lá não está o do meu pai. Já lá não está o da minha avó. Nem os dos primos queridos que continuam entre nós, mas longe.
Na véspera de Natal acordava com aquele cheiro delicioso dos doces a entrar-me pelo quarto...os doces que ainda eram feitos pela minha avó... Passava a semana de férias a ensaiar teatros e canções de Natal com as quais na noite da consoada maçava os tios e os pais e quem lá tivesse para me aturar, porque não raras vezes até os vizinhos nos juntavam na festa. Que saudades destes Natais!
Hoje, o Natal é, ligeiramente, diferente. O cheiro não entra no quarto. A casa é grande demais e a minha mãe faz os doces na véspera da véspera (porque aquilo não deixa para amanhã o que pode fazer hoje...Qualquer dia antecipamos o  24 para o 23). Não os tenho, aos dois, e é também diferente por isso. Mas, tenho-as às duas e é tão bom... por isso. Porque a minha Carolina conta os dias. Acompanha a chegada do Natal através de dois calendários de chocolate (não há gulosa como ela). O escritório fecha-se a oito chaves para que os duendes lá possam trabalhar (é esta a minha versão, porque preciso de um depósito para os presentes... Aquilo é fina como os ratos - como dizia a minha avó - e descobria-os num instantinho). Quando comprei o presente da Constança, o “homem” ficou a pagar e eu saí da loja com a Carolina, numa tentativa de a distrair. Mas, o embrulho era tão grande e vermelho e cheio de fitas que era impossível a Kiki não dar por ele quando chegou ao carro, “Mãe, olha o que apareceu na mala! O que é isto?”, perguntou sofregamente. Primeira coisa que me veio à cabeça, “é o bacalhau do Natal! Tem que vir assim para não descongelar e chegar ao dia 24 inteirinho”. “Raisparta o bacalhau que dá trabalho para caraças”, disse-me ela...

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