Naquele dia vesti uma camisola vermelha. O dia estava feio. Daqueles em que se torce o nariz quando se abre a janela. A noite já tinha sido feia. Voltamos tarde do hospital. Deixaram-nos regressar. Disseram que tinham resolvido o problema. Não me convenceram. Estavas com cor de morto. Abanei os pensamentos dentro de mim (mania das intuições). Tentamos dormir. E dorminmos. Até os teus gemidos, a tua agonia, nos despertar. No andar de cima, senti a tua cama abanar pela dor. E os teus gemidos...ah!...deixa-me voltar a abanar os pensamentos para não ter que os ouvir outra vez. Acordei como quem acorda angustiada de um pesadelo. Mas era real. E desci as escadas aflita. E com medo. Porque estarás a sofrer assim? Porque estarás a sofrer assim?Sentia-me preparada para tudo...menos para te ver sofrer assim... A sala estava gelada. Tentei aquecer as mãos entre os joelhos, mas continuava a tremer. Não era o frio. Era o medo! Agonizavas...subi as escadas. A correr. Para fugir do último suspiro. Lá em baixo, elas abafaram-me com gritos...o cheiro da morte...que não quis sentir...
E a camisola vermelha vestida.
À noite estreou na SIC o Levanta-te e Ri (que ironia). Faz hoje 8 anos!Mas, pai, estás comigo...aqui e agora.

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