19.1.11

Lição do dia...eu não diria melhor


e porque haverá sempre um passarinho amarelo


Durante muito tempo acreditei na premissa que defendia a infelicidade como consequência da inteligência. Para muitos, a coisa é simples: quem tem neurónios não conseguirá nunca ser feliz. Quem pensa, quem raciocina, quem tem cultura e densidade intelectual está condenado a uma vida amarga, de angústias sempre renovadas. Porquê? Ora, porque a vida é lixada. E, já o povo o diz há anos, «muito riso pouco siso». E só os idiotas é que podem rir quando isto de viver é o que é.
O tanas, digo eu. A tese serve para uma de duas coisas: para justificar a efectiva incompetência de alguns para serem felizes (ou a falta de sorte na vida, vá) ou então dá muito jeito para armar ao pingarelho.
Conheço gente que se comporta, todos os dias, como se a família inteira tivesse falecido na véspera, mesmo quando a vida que tem é razoavelmente tranquila. A um alegre «bom dia» esta gente responde com um misterioso sorriso triste. A um «como vai isso?» vem um encolher de ombros desvalido. E às conquistas da vida nunca existe mais do que um esgarzito amarelo de quem sabe que a tormenta da vida supera sempre a pequena vitória.
Durante muito tempo acreditei nisto. Por um lado porque era adolescente e competia-me ser infeliz. Por outro porque procurar a felicidade dava muito trabalho e era infinitamente mais simples acreditar que pertencia ao grupo dos superiormente inteligentes. Esses que reflectem e que, ao reflectir, não podem ser mais que circunspectos.
Hoje não tenho pachorra para isto. Mesmo. A vida até pode ser lixada. Até pode haver a crise e o FMI e o desemprego e os políticos que temos e o IVA a subir e as contas para pagar e as cheias e o amigo que morreu e a infância conturbada que tivemos e a falta de amor que sentimos e um divórcio litigioso e uma maleita crónica e outras fatalidades que nos vão acontecendo. Pois sim. Mas há coisas piores. Há sempre coisas piores. E estamos cá. E há um céu azul e uma brisa com cheiro a mar e risos de crianças e o abraço de alguém. E o sabor do chocolate e o beijo de um filho e o elogio de quem se admira e um pôr-do-sol no Verão. E a viagem sonhada e a música que nos toca e um encontro de amigos e uma pintura que nos prende o olhar e o brinde a uma boa notícia e o livro que nos comove. E a vida. Não me lixem. A vida pode ser lixada. Mas é a única que temos. Como dizia o querido e saudoso Raul Solnado, façam o favor de ser felizes. Não há maneira mais inteligente de viver.


*sim, só podia ser jornalista.

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