Quando vejo outros velhos a comemorarem 100 anos penso sempre que podias ser tu. É inevitável. Isso foi sempre uma certeza na minha cabeça. Já tinhas apagado 88 velas, mas para mim tantos anos eram muito pouco, ainda. Pensava ter-te comigo mais uns 15 anos. Ali, no sitio do costume. Com as brigas do costume. Pensei que o leite em cima da mesa - o leite que era aquecido vezes sem conta, o leite de que te queixavas sempre, por estar frio, por estar doce de mais ou por não o poderes tomar de tanto azedo, “queres dinheiro para o açúcar?”, perguntavas ironicamente. Como dizia... pensei que o leite fosse por lá ficar muito mais tempo.
E o comando? Estava convicta que íamos continuar as nossas discussões pela posse da televisão. Pensei que continuasse, anos fora, a moderar as discussões que tinhas com a Carolina para apurar quem fora a primeira a chegar à casa de banho.
Convenci-me que as tuas queixas pela sopa não estar ao teu agrado se mantivessem, por muitos e bons anos.
Gritavas connosco com a pujança de quem tem 15 anos e acabou de perceber que os homens não são perfeitos. Viveste 88 anos com a saúde de quem acaba de nascer e tem a vida pela frente. Nem um cancro com 80 anos te adoeceu. Continuaste a fazer a tua sopa (a minha sopa). A fazer o teu toco com a arte que a tua mãe te ensinou. Continuaste a ler (ninguém lia livros com a tua rapidez). A ver notícias (como gostavas da SIC Notícias). A escrever...
Naquele Natal obriguei-te a entrar no carro. Percorri a cidade. Era Domingo. Mostrei-te as iluminações naquele ano em que ainda não se falava em crise e a Câmara não poupou nas luzes. O Toural deslumbrou-te. E uma mão apertou-me o coração.
Em oito dias deixas-te tudo. A sopa nunca mais foi igual. O leite não voltou a arrefecer na mesa da sala. A SIC Notícias perdeu audiência. Deixei de levar-te livros. Deixei de te ouvir. Entendi tarde que te despedias. E tirar-te de mim foi a coisa mais violenta que sofri na vida.
Aquele canto continua vazio. O teu cordão no meu pescoço. A minha pele que lembra a tua. Os meus cabelos, da cor do fogo, como o teu. E a tua força?! Ah, como quero viver assim! E morrer assim...velha. Com filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Com cada mão no meu rosto. Cada lágrima (e foram tantas)....
Mas, a verdade é que nunca pensei que fosses morrer. Podia morrer o vizinho do lado, de 30 anos, que transpirava saúde e eu achava a coisa mais natural do mundo. Mas, tu? Tu não! Tu eras o meu muro. Que jamais cairia...
Naquele domingo caiu (e eu ainda não me ergui...)

O desaparecimento de alguém querido, de alguém que faz parte do nosso dia-a-dia é algo que não se consegue superar... E se eu ainda hoje tenho a sensação de que aquele canto do sofá estará ocupado não consigo imaginar o tamanho do vazio que sentes!!!
ResponderEliminar