17.3.11
Subtrair vocabulário
Penso - muitas vezes - como conseguia sustentar aquela barriga. Equilibrar-me, até, porque dormir há muito se havia tornado uma tarefa hercúlea. A Constança era um bebé enorme, em peso e em comprimento e há meses que se tinha apossado das minhas entranhas. Desde os seis que gostava de me empurrar os pulmões e obrigar-me a suspirar amiúde para equilibrar a respiração. Para mim, era o limite do esforço materno. Mas afinal não... Foi muito pior quando, a Constança com os pés me empurrava os pulmões e uma mão me apertava o coração. Porque, assim, numa tarde amena de Março vi o meu vocabulário ficar mais pobre. Sem me dar conta e com uma barriga a dois dias de parir perdi mais um vocábulo. E daqueles pujantes.
Dela, ainda lembro o cabelo escuro apanhado em toco. E mais tarde a mania do cabeleireiro. Lembro-a no socalco da porta a acenar-nos quando íamos para a escola, até que desaparecêssemos do seu olhar. Lembro a cadeira e a maçã (que descascava com uma faca, tal e qual o meu pai). Lembro os pães com manteiga e as batatas cortadas em pedaços pequeninos. Lembro os gritos…quando se despediu do filho que sem darmos conta a levou com ele. Lembro-me sempre de estar a dar vida quando a morte a levava. E principalmente da ternura. Do sorriso constante desta minha outra velha.
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