Não escolhemos ficar apenas as duas. Preferi nao chorar contigo. E a última coisa que queria era ver-te exorcizar essa dor. Não escolhemos ficar assim. Mas assim estamos (e espero que continuemos).
Sei o quão desejada fui. E como ficavas bem de barriga quando ainda te sentias mulher. Lembro-me de te ver numa foto num vestido rosa pré-mamã e de me imaginar ali dentro. Escolheste-me o melhor dos pais. E agradeço-te porque até para amar é preciso saber. E eu fui a mais amada das crianças (perdoem-me a presunção). Tive tudo. E tive amor. Tive proteção. E senti-me sempre uma pequena borboleta que ia crescendo dentro do seu casulo. A quem as asas custavam a desabrochar...
Nem sempre gostava das roupas que escolhias para eu vestir. Principalmente quando me enfeitavas para as festas e me obrigavas a usar veludos (como odeio veludos). Ir ao cabeleireiro também não era dos meus hobbies favoritos. Mas insistias. E cortavas-me o cabelo. Queixavas-te que era "archudo" . Lavavas-me a cara com a água do arroz depois de o cozer. Não me querias de sardas. Não me querias de tantas maneiras. Mas é assim que sou. É assim que me tens. Imperfeita. Impulsiva. Refilona. O meu pensamento é mais lento que a minha raiva. E ela fala quando deveria estar em silêncio. Muitas vezes arrepende-se e cora de vergonha.
Eu sou tudo o que tu quiseres. Ou antes, o que não queres que seja. Mas sou tua. Fizeste-me assim. Saí do casulo. As asas agigantaram-se e hoje acolhem duas pequenas lagartas que também vão crescer. Vivo numa armadura que me deixa imune a mais perdas.
Preciso de ti. E preciso de tudo que tens para me dar. Preciso que me fales do tempo. Que me digas que estou bonita e que te orgulhas. De mim. Delas. Que confias. Que não querias outra no meu lugar.
Nunca vais ler o que hoje te digo. Mas digo à mesma. Eu não te trocaria. Mesmo que torças o nariz de cada vez que te pergunto se estou bem. Mesmo que nunca me digas palavras de incentivo e de estímulo (e não me chames filha) e quase sempre me cobres das coisas em que não sou boa. Estou-me nas tintas. Mesmo que continues a não fritar as batatas à minha maneira. E que continues a deitar - quase - mais sunquick do que água. E a usar pouco sal. Mesmo que prefiras outra manteiga que não a mimosa. Que uses as minhas jóias que te provocam alergia e depois as esqueças numa bolsa qualquer. Mesmo que não seja o que tu sonhaste que seria. Sou assim. … é o que se arranja.
Mas, gosto de ti.
Parabéns mãe

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