Começo a ficar farta da palavra “crise”. Ouve-se mais que um “bom dia”. Encontramos uma conhecida na rua e depois dos cumprimentos segue-se a pergunta da praxe “está tudo bem”. “Devolvem-nos um “tem que estar, né, mas está difícil com a crise”. Pois, a crise é tramada realmente. Já gahou o estatuto de uma prima afastada. Intrusa. Pediu-nos para ficar dois dias e sem dares por ela já tem a escova de dentes na casa de banho. A crise mudou-se para milhões de lares, e não foi só na Europa. Não poupa governos, organismos públicos, chefias...Só poupa o futebol e os seus intervenientes que se passeiam com quilos de ouro ao pescoço em topos de gama, alguns que nunca foram entregues porque entretanto quem o encomendou morreu na estrada a 260 à hora.
Eu sou péssima com números. Não entendo de economia nem de finanças. Se calhar nem devia estar a escrever sobre isto... Talvez, hoje o cenário seja pior, mas a verdade é que quando cheguei ao jornal há 10 anos atrás já se falava num país pobre à beira mar plantado acostumado a seguir na cauda dos parceiros europeus. Nós ganhamos menos e pagamos mais. Mas isso é novidade para alguém? Gastamos o (pouco) que temos e endividamo-nos se não o tivermos, mas não podemos ficar sem o iphone ou a criança sem a playstation. Compramos perfumes como nenhum outro povo europeu. Temos um para cada dia útil da semana e dois para cada dia do final de semana. Vamos ao cabeleireiro duas vezes em sete dias e fazemos madeixas de dois em dois meses. Pagamos para que nos pintem as unhas porque é impensável pousar a Vogue francesa dois minutos para o fazer. Alem disso, como a folhearias com o verniz por secar? Torcemos o nariz às marcas brancas e juramos a pés juntos que o leite sabe mal e a água não cheira a água. Não usamos os transportes públicos. Se o carro estiver para a revisão ou exigimos uma boleia ou chamamos um táxi. Algumas vezes não vamos trabalhar. Ao entrarmos em casa, pousamos a bolsa na sala e ligamos a TV. Dirigimo-nos para a cozinha, abrimos o frigorífico para beber água e ligamos (outra) a TV. Como o tempo voltou a aquecer optamos por não abrir as janelas e ligamos o ar condicionado. Agora que o ambiente ficou à nossa medida apetece-nos um pouco de musica para descontrair. Ligamos o som e de uma assentada o computador também. Subimos para o banho. Mais uma TV no on. E o rádio também. Enquanto isso, a água verte. A banheira está quase cheia. Quando nos apercebemos já é tarde e temos de esvaziar um pouquinho para não entornar a água. Vai que as miúdas entram e escorregam!
Afinal estava a falar de quê? Da crise? Qual crise?


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