21.9.11

Madrinhas





A minha madrinha morreu quando eu tinha 7 anos. Foi a primeira vez que entendi (senti) o peso que a morte tem na vida. Foi a primeira vez que senti o sufoco de um problema sem solução possível.
Lembro-me bem desse dia. Lembro-me da minha avó estender a roupa na garagem da minha madrinha e me dizer que ela tinha melhorado. Lembro-me de um telefonema com uma mensagem completamente estúpida, “olha, diz à tua mãe que a tua madrinha morreu”. Assim, como estivesse a avisar que o queijo no Intermarché está a 4 euros o quilo. Não precisei de lhe dizer porque a minha mãe já sabia. Já se acabava em prantos, estendida no sofá, porque naquela manhã acabara de perder a irmã que mais gostava. A irmã que lhe batizou a única filha.
Talvez não fosse suposto uma criança de sete anos, desatar a chorar. Mas eu chorei. Molhei de lágrimas o vídeo ao lado do telefone.
Uma vizinha insistia em explicar-me o sentido da morte. Bolas!!! Eu sei o que é morrer. É desaparecer. Sei que não a voltarei a ver. Acabaram-se os passeios; os Natais; acabaram-se as tardes de sábado a brincar com os insectos de prata que trouxe de França; acabou-se a rosca que exibia no pulso como a mais valiosa das pulseiras. Acabou-se! E o pior era que eu, sempre tão desenrascada, não tinha, para aquela situação, uma solução. Não era capaz de mudar nada. Não tinha como secar as lágrimas da minha mãe. E as minhas.
Vi no rosto, seco de lágrimas, da minha avó, a mais triste das mulheres. Porque naquele dia perdeu uma filha. Velou-lhe o corpo gelado. Enterrou-a.
Passaram mais de 20 anos (22, para ser objectiva). E hoje, tenho a indelével certeza que se tivesse percorrido este troço com a minha madrinha, tudo seria diferente. Para melhor. Ela faltou a muita gente. À filha, que deixou órfã com 9 anos. À minha mãe (e que falta lhe fez). E também a mim. Não tenho dúvidas.
Já não choro por ela e há muito deixei de a procurar de baixo da cama, mas sei que a vida de todos nós seria bem diferente se a tivéssemos vivido com ela.
Sete anos da minha vida foram fracções de segundo. Um tempo que no presente parece nem ter existido, mas que bastou. Para entender que a minha mãe não podia ter sido mais acertiva quando a escolheu para minha madrinha. Porque 22 anos depois ainda lembro o seu sorriso. De mulher forte e destemida. De bem com a vida. Ainda lembro as últimas palavras que lhe ouvi, já no leito de morte.
A minha mãe acertou em cheio com aquela escolha. Mas, nem sempre somos felizes.

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