21.10.11
Companheira
Não é de todo normal que recuses comida. Torna-se preocupante se viras a cara a fiambre. Não reages. Limitas-te a seguir-me com os olhos. Esses olhos grandes que continuam cravados nos meus. Com a dureza de um punhal. Que fere. E faz sangrar. Se os teus olhos falassem... Não. A verdade é que eles falaram. Responderam à pergunta que te fiz, "há mais alguma coisa que possa fazer por ti, companheira?". E eles responderam. E despediram-se. Cravando aquele olhar no meu. Morrias, mas os teus olhos continuavam tão vivos... Continuas-te a olhar-me enquanto descias as escadas no colo do Nelson transformado em leito de morte. Despediste-te mais um pouco em cada degrau.
Fartaste-te de fazer disparates. Mas, eu gostava desse jeito de menina numa cadela velha. Se procurasse não encontraria uma companheira tão boa quanto tu. Com quem desfiei as horas de muitos dias. Lembrei-me agora de quando te deixei no terraço, bem no cimo do telhado. Não tinhas por onde sair, mas quando cheguei não te encontrei. Entrei em pânico. E de repente, apareces-me toda branca, saída de uma parede que tinhas acabado de roer.
Elas perguntam por ti. Continuam a colocar comida no teu prato, à espera que voltes.
Eu fico com os teus olhos. E retribuo-te com as lágrimas que me mereces.
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