29.10.11
O último aniversário
Lembro-me que naquela sexta feira pintei o cabelo. Ainda não esqueci a roupa que vestia. Nem o último local que estive antes de ir para casa.
Estavas impaciente. Como se sentisses que o tempo era escasso. Como se soubesses que seria o último par de velas que soprarias. E assim fechavas meio século de vida. E por ali ficarias. Glorioso. Mesmo tu que nunca simpatizaste com o Benfica. Dono de uma vida curta, mas intensa. O penúltimo de quatro filhos, ficaste orfão de pai com apenas 17 anos. Seleccionado para ires ao prémio na Sociedade Martins Sarmento recusaste a distinção porque não tinhas sapatos. E haveria de ser por um lápis - que não te deram - que levaste a primeira e única bofetada. Não sei se foi da mágoa por em tempos não teres que calçar, mas foi nos sapatos que fizeste carreira.
Pai de uma única filha. Bom vivant. Homem de paixões e ódios. Descomprometido. Viveste com uma armadura. Morreste sem a tirar.
Naquela sexta feira quiseste a casa cheia. Tu que eras um homem de solidão. De silêncio. Não te importaste com os parabéns cantados a tantas vozes. Mesmo que a dada altura te tenhas retirado para o teu sofá.
Aquela foi uma festa de anos dissimulada, disfarçada de despedida, ainda que nenhum de nós imaginasse que dali a menos de três meses estivéssemos a chorar a tua morte.
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