Cresci com cães por perto. Herdei do meu pai este gosto. E encaro-o quase como uma obrigação ter um cão- ou mais- como elemento da família.
A Bia e o Bill foram uma espécie de irmãos que não tive. O Bill morreu envenenado ainda jovem e a Bia morreu de amor. Nunca superou a dor de o perder. Deixou de comer, de sair do ninho e morreu cerca de três meses depois.
Não ouvir os latidos- não os ouvir chamarem-me- era insuportável. Não ter aquela companhia que me aquecia os pés, que dormia comigo sem que ninguém soubesse... Aquele vazio causava dor. Precisava urgentemente de outro cão.
O Nelson apareceu com a becas em outubro de 2001- nem de propósito, já lá vão 10 anos- era linda, elegante, uma verdadeira senhora. Apaixonei- me por ela a primeira vez que a vi. Nunca mais a larguei.
A Becas já viveu comigo em três casas mostrando uma adaptabilidade impressionante.
A Becas engravidou e por ser demasiado nervosa perdeu os seus bebes. Passou bastante mal na ocasião.
Hoje a Becas fugiu quando abri o portão de casa. Há três semanas que dois cães vadios não me largam a porta. Perdi a conta as vezes que já liguei para o canil e nada. Os cães, apesar de tísicos e moribundos são complicados de capturar. E a Becas fugiu. E enfiou-se com os vadios num descampado Como demorou para voltar fui procura-lá e encontrei-a presa. Chamei o Nelson para levantar a rede. Ela correu, feliz, na minha direcao e foi atropelada. Rodopiou por baixo do carro, envolvida para se proteger. A Carolina desatou aos prantos. Eu culpei o Nelson. E vim embora. Tomei-a como morta e vim para casa chorar as lagrimas que ela me merece. O Nelson correu com ela para o veterinário. Esta estável. Tem uma para partida e provavelmente a bacia também. Esperemos que não tenha hemorrogias internas. São decisivas as primeiras 48 horas.
A Becas que formou 9 meses na minha barriga gravida da Carolina, a quem lia os textos que escrevia sobre o ventre carregado de vida ficou internada.
A becas fará no dia 16 de outubro 10 anos.
Estou certa que fará. Torçam por ela.
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