3.11.11
As desculpas da crise
Ouve-se muito que a crise é uma oportunidade. Para criativos e mentes brilhantes. Ou apenas para sortudos que por acaso descobriram a galinha dos ovos de ouro. Mas, eu cá acho que a crise é uma oportunidade - também - para a chica-espertice - no seu melhor. A crise é desculpa para tudo!!!! Para patrão não pagar salário. Para homem em plena andropausa jogar o seu (não) charme para vintona gostosa com a justificação que a crise abalou o seu casamento de duas décadas - quase três. A crise é desculpa para se gamar chocolates no supermercado. So há dinheiro para o saco de cinco pães que alimenta uma família de sete pessoas. E o chocolate tem nele um efeito antidepressivo. A crise veio para ficar, mas não se alteram hábitos por ela. Tomar o pequeno almoço em casa é impensável. A solução é sair da pastelaria sem pagar. Assim, na lata. Depois do café e do pastel de nata, da leitura do jornal do dia que ainda traz - com a maior das naturalidades - de baixo do braço sai porta fora. O patrão não está e o funcionário sabe que é inútil a repreensão porque da boca do mau pagador a desculpa é apenas uma e previsível, "é a crise".
Por ela, a crise, tenho assistido a verdadeiras tragicomédias. E já nem falo dos episódios recorrentes que se passam nas caixas prioritárias. A moda agora é outra. Passo a contar.
Aqui no Lidl (juro que não é perseguição e nem tão pouco ando a receber dinheiro do Continente), ao final da tarde estão duas caixas abertas. Quando a fila quase esbarra nas arcas dos enchidos bem ao fundo, uma mente iluminada toca na campainha para chamar o colega da caixa 3. O dito cujo instala-se e em voz alta diz, "por ordem podem passar para esta caixa". O que se segue é uma luta lamentável por chegar primeiro ao tapete e colocar os seus artigos. O que mais me custa é que vencem sempre os inergúmenos. As pessoas ditas normais- como eu - que até nem são rápidas na mobilidade, mas mortíferas na língua, resignam-se. Deixam-se alcançar. Defendem-se com o típico olhar do desencanto, da estupefacção.
No feriado de terça feira, aconteceu exactamente isto. Um homem com os seus 40 anos acotovelou os demais para alcançar primeiro a caixa, mesmo que o funcionário tivesse dito "por ordem". O outro - que seria o primeiro se a maioria soubesse o significado de "por ordem", resignou-se. A mulher e a filha do inergúmeno chamavam-lhe a atenção enquanto ele barafustava. Não aguentei - como de resto acontece - e disse-lhe: "deveria ter respeitado a ordem da fila que já estava formada na outra caixa como o funcionário referiu". A mulher, envergonhada, insistiu, "estás a ver. Eu disse-te". Ele pensou uns segundos e eu - crente -acreditei que se fosse desculpar, mas não. Qual quê? Virou-se para a mulher e voltou a surpreender, "respeito a ordem se eu quiser. Eu é que sei. Eu é que fiz a ordem".
Ok, pá. É a crise! Pois com certeza. Tempo é dinheiro. Mesmo que fosse feriado.
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