9.12.11

Eis- me

Sentada numa das cadeiras pretas do Centro de Emprego de Guimaraes. Na mão esquerda o ticket 551- à minha frente estão cerca de 20 desempregados. Sobre as pernas cruzadas o modelo RP 5044 que guardo como se fosse um título de tesouro ou um anel de ouro de 30 gramas. As horas de sono que a falta deste papelito me roubou; o dinheiro das cartas e o tempo na fila dos correios; as chamadas efectuadas que me fizeram exceder o plano dos 450 minutos. Devo ser a desempregada mais excêntrica do país. Ele é gastos de telefone, em advogados, em cópias de registos e avisos. É duro ser desempregado em Portugal.
À chegada, uma senhora com uma carta ainda por abrir, abordou- me. Queria saber que senha deveria tirar. Bastou- me ler o cabeçalho para perceber que aquela senhora, de ar modesto, cabelo por pintar e cachecol no pescoço, tinha sido notificada para uma junta médica que acabava de faltar porque não abriu a carta.
Eis-me de perna cruzada e dormente a olhar para uma TV cuja imagem é vermelha. A Seguranca tinha proibido os utentes de sentarem no vão da escada, mas o vão virou banco colectivo. E a Seguranca resignou- se.
Parece- me que vou voltar às benzodiazepinas.

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