Fazem-se estudos para aferir o grau de felicidade dos portugueses. E de outros povos do mundo. De nós, dizem que somos acolhedores e hospitaleiros, mas não seremos os europeus mais felizes.
Não eram precisos estudos para se concluir isso. Basta ser português. E frequentar sítios. Cafés, pela manhã. Quiosques para comprar o jornal do dia. Padarias para se trazer o pão para casa ao entardecer. Basta falar-se, com quem se conhece e com quem apenas se vê. E se partilham as angústias.
Dizem, esses mesmos estudos, e eu registo em jeito de curiosidade, que as mais belas expressões (de felicidade) captadas pelas objectivas fotográficas são de gente subnutrida de países pobres de terceiro mundo. E se nos limitarmos a Portugal, o mesmo estudo, relizado por uma reputada universidade, constata que os portugueses mais felizes são os que não têm casa ou os que a tendo a dividem com uma dezena. Passam frio. E fome. E dizem-se felizes. Surpreendente, ah?!
No Domingo, discutia à mesa, com a minha mãe e uma tia sobre felicidade. A minha mãe, típica portuguesa, atormenta-a as dores diárias. De cabeça. Das costas. O coração, que de quando em vez, dispara durante a noite. A cara que inchou porque o dente infectou. A ansiedade. Faz contas às horas de intervalo entre uma e outra toma de benuron e brufen e o calmante do dia. "Mulher doente, mulher para sempre", digo-lhe tantas vezes que já nem as consigo contar. É mãe de uma única filha e avó de duas netas, que ajuda a criar. Orfã. Viúva. É incapaz de assumir felicidade e bem estar.
A minha tia deixou-se contagiar pelas profecias da desgraça e revelou que se sente cada vez mais infeliz. Com os anos. Os meses. Os dias. Sente-se só. Mas, a sua infelicidade justifica-se pela ausência dos que lhe são mais próximos. Filhos (dois) e netas (duas) emigrados e que só vê duas vezes por ano.
A solidão também me entristeceria.
Não conheço ninguém que se assuma feliz. A quem se pergunte "então, está tudo bem?" e do outro lado não se devolva um "vai-se andando...". Como que teimando. Sobrevivendo. Pior, como que encarando a vida como um castigo que se tem de suportar.
Eu própria, à luz da minha razão, posso julgar-me das pessoas mais felizes do mundo, mas nem sempre o meu corpo (e a minha mente) é coerente. E toma-me como refém.
Falta aos portugueses um "je ne sais quois" de brasileiro. De pé descalço e chapéu de palha na cabeça. E música - samba no pé. Mais do que o clima. E a beleza do país, o que mais impressiona no Brasil é o jeito deles. É o palhaço que chega ao pavilhão que alberga centenas que ficaram sem casa e família depois das cheias. Juntos cantam. E dançam. E fazem malabarismos com o pouco que resta para comer. E pela boca diz-se "bola para a frente que atrás vem gente".

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