22.1.12
A vida lá fora
Fria é de certeza. A tal ponto que quando chegas a Guimarães pensas que estás na primavera em pleno janeiro. A brisa, ao pisar o asfalto do aeroporto, acaricia-te o rosto. Não corta. Como que a dar-te as boas vindas. E num gesto instantâneo o coração sorri.
Hoje saí à rua sem casaco e o janeiro ainda não terminou. De manhã não liguei o ar condicionado.
A vida lá fora é dura. E solitária. Os homens saem cedo para o trabalho que se faz a muitos quilómetros de distância. E este cedo é o tarde da noite, num dia que continua iluminado artificialmente porque tarda ainda para o sol nascer.
As mulheres arregaçam mangas. Sobem dezenas de andares pelo próprio pé, com as mãos carregadas de baldes, com os baldes carregados de água que transborda - qual gota de suor - degrau a degrau. Mas antes, entregaram os filhos nos colégios, lavados em lágrimas, e morderam o lábio, assobiaram para o ar. Resistiram para não os trazerem e meterem na mala de regresso a Portugal.
A vida lá fora é uma casa emprestada. E por muito que paguemos por habitar aquelas meia dúzia de paredes, há sempre algo que nos lembra que aquela terra não é a nossa. Seja a língua e por continuarmos a não acertar quando dizemos cavalo ou cabelo. Seja a sanita quase sempre colocada no exterior separada da "sala de banho". Ou a papa dos filhos que vem em pacotes individuais.
Há cocó no chão. E lá fora há muitos cães que se deixam passear por velhos e velhas que os têm para fintar a solidão. Há graças de 200 euros deixados em envelopes nas caixas de correio como quem deixa as promoções do Intermarché.
Lá fora há a música tradicional portuguesa que toca ininterruptamente no rádio do carro. Há elevadores que descem os carros até à garagem. E shoppings feios, com lojas feias e Yves Rochér ao dobro do preço de Portugal. A água sabe mal e come-se queijo no final do jantar.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário