1.2.12

S de Saudades


A Carolina é uma criança que gosta de companhia, apesar de se reinventar nas suas brincadeiras. É pediatra, às vezes. Quase sempre, professora. Bailarina também. Encerra em si, muitas artes e ofícios - mas nunca a vi ser jornalista. Transforma objectos. Papéis em cheques. Talheres em bisturis. A bicicleta vira ferrari...
Mas, prefere sempre companhia. E usa o tempo livre que tem em casa para brincar com uma vizinha um pouco mais velha.
A Carolina é surpreendente. Nas respostas. No comportamento. Nas opções. Lembra-se de querer coisas que nem ao diabo lembrariam. Depois de me ter pedido uma cana de pesca, recentemente pediu-me um "objecto para ver filmes". Não entendi. Porque há muito temos um leitor de dvd. Ela explicou que não queria ver os filmes nesse "objecto" e que os filmes não eram os habituais dvd's, mas umas caixas pretas com uma fita. Estaríamos a falar de VHS???
A tal vizinha tem uma irmã mais velha que guarda uma colecção de filmes nas velhas cassetes VHS. A minha filha, nascida em pleno século XXI, quis recuar no tempo e não descansou enquanto não arranjou um vídeo cá para casa. Desenrascou-se na casa do tio avô. E depois foi para o escritório procurar cassetes.
Da minha infância não havia nenhuma. Na ocasião o meu pai alugava os filmes nos vídeo-clubes. Mas ela encontrou umas quantas cassetes e foi para o quarto ver o que tinham.
Encontreia-a sentada. Muito quieta. A olhar a televisão com ar sorridente. Meigo. E, a miúda tramou-me naquele momento. No ecrãn da televisão, vi - e ouvi - o meu pai. Saudável. A dizer piadas. E a rir com um grupo de amigos. E foi tão...bom...? Mágico, até...como de tão... bom fosse também impossível. E era só uma voz que ouvi por duas décadas e naquela cassete velha voltava a ouvir de novo. O tempo parou naquele instante da fita. E abraçámo-nos. Os três. Como se a linha, ténue, que nos separou nunca tivesse existido. E o futuro, ali, invertido, naquela voz que voltou a soar.

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