28.2.12

A “sua” aventura na Segurança Social



Ainda não eram 9 horas quando passou na rua da Segurança Social. Já o povo se enfileirava para quando a funcionária abrisse as portas, um a um, carregasse no botão do atendimento geral.
Decidiu passar mais tarde. Aproveitaria para tomar o pequeno almoço requintado e baixo em calorias que tanto aprecia. O café nos 28 graus - nem mais, nem menos. O sumo de laranja natural, com a sua pedra de gelo e a palhinha rosa choque, como os louboutin, que tem calçados.
Comprou a Vogue de Março e a Máxima que traz o suplemento especial tendências primavera / verão 2012. Folheou e dobrou o canto superior da página que tinha alguma das suas peças de culto.
Pegou no iphone com orelhas de coelho e pom-pom na traseira e fez umas chamadas. “Fatinha, querida, vou passar ainda hoje. Faz-me um sortidinho. Não esqueça o chanel, por favor, tamanho S que estou bem mais magra”.
Voltou à Segurança Social. Estacionou em cima do passeio e deixou com o arrumador 10 euros para lhe vigiar o bólide. “Você tem telemóvel querido? Claro que tem, se o Governo Civil deu aos velhinhos, com certeza, também lhe ofereceram um. Oiça, vou deixar-lhe o meu número se se você os avistar, aos PM,  dê-me um toque que eu volto num instante”.
E lá foi. Passou os bancos lotados. Ocupados por calças de origem duvidosa e senhores de meia branca calçada. Sentiu a mistura do desodorizante label e do hálito a tabaco e café. “Mas esta gente não sabe o que são pastilhas elásticas? Ou chiclas como lhe chamam?”.
Subiu as escadas. Frias. Num alcance rápido e húmido até ao andar de cima.
Meia dúzia de cadeiras. Todas ocupadas.  “Menina você viu aquele filme do Daniel Craig? A menina parece mesmo a fulana do filme que até estava  nomeada para melhor atriz, mas perdeu para a Meryl. Esse seu ar de toxicodependente, o cabelito assim e o ar de cadáver. Fantástico! Foi de propósito para lhe darem o rendimento mínimo ou anda assim todos os dias? As criancinhas da sua rua não se assustam?
E você querida, tem um moreno invejável. É seu ou já começou com o solário? Eu também começo nesta altura. Mas não tem frio aos pés para andar assim na rua de chinelo. Ai querida, andar sem collants histórias, se bem que aqueles sem costuras são fantásticos e podemos calçar a sandalinha que não se nota nada, mas esses pés… Espere lá, pegue no telemóvel que vou dar-lhe o contacto da minha estética. Vou dizer para lhe fazerem uma atençãozinha. Não me leve a mal, mas esse cabelinho também está a precisar de um corte. Ia deixá-la mais light e em vez de parecer que tem 120 quilos, sei lá, talvez passasse por uns 90 ou 95, na pior das hipóteses.
Vocês também estão cá por causa do rendimento social de inserção? É assim que se diz. Vocês é que insistem com o rendimento mínimo. Coitadas, não têm TV Cabo, pois não? Sabem que no Brasil, os favelados têm?  E internet sem fios, também. Acho uma injustiça, vocês também deviam ter”.
Foi interrompida pela funcionária da Segurança Social, “próxima”.
“Ai, sou eu, não se importam, pois não? Tenho o carro em cima da passeio, o querido do arrumador está a controlar, mas tenho cabeleireiro daqui a 10 minutos e não gosto de me atrasar porque elas são umas queridas, mas depois não me fazem a massagem capilar como deve de ser. Vá, foi um gosto conhecê-las”.

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