Já ouvi algumas vezes a expressão "a última coca-cola do deserto" para classificar algo de raro. Ou de bom.
Nunca ouvi a "melhor bolacha do pacote", até hoje. Mas não me soa bem. Quem a inventou teve uma ideia peregrina. Tola, mesmo. Ao menos que dissesse a "última bolacha do pacote", tipo, aquela que resta e todos querem deitar o dente, mas ninguém tem coragem.
À parte disto há outro adjectivo que me intriga: "estranho". Quando o uso é, normalmente, para classificar algo que não sei dizer. "É estranho como ele me faz sentir". Ou "é estranho o efeito que as tuas palavras têm em mim". Ou, "é estranho sentir inveja de quem não conheço"... Talvez, "é estranho perder o meu tempo a falar mal de alguém na blogosfera, especialmente de alguém que me dou ao trabalho de ler", ou "é estranho ser Verão e não ter amigos que me convidem para ir à praia e resta-me vir para a Net destilar veneno". And so on... Nunca mais acabava.
Vai daí, optei por me sustentar em critérios científicos e procurei o dicionário para entender se a minha interpretação de "estranho" estava correcta.
Eis a definição:
estranho | adj. | s. m. | s. m. pl.
Entre muitos exemplos, como estrangeiro ou desconhecido, alheio ou singular, diz o dicionário que estranho pode ser também algo de "extraordinário". E neste contexto, entendo-a, anónima, quando diz "a melhor bolacha do pacote".
Mas, discordo totalmente. Não tenho nada de extraordinário. As duas gravidezes deixaram-me com estrias na barriga, as mamas caídas e murchas e a anca ligeiramente larga. Os meus dedos dos pés são feios e gordos. Tenho uma meia dúzia de cicatrizes que resultam de uma infância livre e feliz. Não faço mais de 50 quilómetros sem vomitar o que é uma chatice nas viagens longas. E sempre que vomito urino-me.
De resto, como a anónima, faço xi-xi e cocó (o que não tem nada de estranho), lavo a cara e os dentes. Ah, o cabelo também... Uso champô, máscara, gotas para hidratar, protector solar e um desembaraçador no Verão. E mesmo que não usasse nada disso, tive a sorte de nascer com um bom cabelo (herança genética). Toda a gente o gaba e chega a duvidar da sua cor natural.
Talvez só isso seja "estranho".