4.11.16

Outubro em Novembro. Do acidente à festa.


Sabia que (Outubro) seria intenso. Queria-o inesquecível. E comprometi-me na tarefa. Longe de imaginar que Outubro de 2016 se tornasse memorável, pelo mau e pelo bom.
Distraíste-te na via rápida e começaste o mês no bloco operatório. Temi por ti e pela tua festa de anos que todos planeávamos, menos tu.
Depois da alta, rapidamente percebemos duas coisas: que não respeitarias a convalescença e que a festa não estava em risco.
Foi uma espécie de casamento cigano que se prolonga. Os festejos iniciaram a 20 e terminaram a 23. Pronto, exagerei, foram só três dias, mas pareceram mais. Outubro pareceu muito mais.
Cabem neste mês, que se finou, o desespero da espera, o cheiro da doença, o medo, o indicador que secou a lágrima. Mas cabe também o sorriso genuíno de quem está feliz. O banco do parque na noite de chuva. O presunto e o javali que insistes em chamar de porco e de preto.
Não esquecerás os teus 36 anos. Nem Outubro. E eu também não.

29.10.16

O Outubro do meu pai.



Mais ou menos por esta hora assavam-se as castanhas enquanto outras se descascavam para cozer, com canela. Dispunha-se a cebola - brava, como gostavas - com o vinagre tinto. Cortava-se o pão, enchias os copos.
Material do Sporting, facas e canivetes suíços. Era o que gostavas de receber. Mas, mais do que isso, gostavas da casa cheia. E encheu da última vez que te celebramos o nascimento.
Eu existo porque existe Outubro. Porque existes tu.
Os pais - como tu - não deviam morrer. Fizeste-te avião para me mostrar que me carregavas nas tuas asas, se precisasse, mas fizeste-me entender que com as minhas próprias asas também voaria.


20.10.16

Os teus 36!



Não sou a melhor mulher do mundo nem tenho o melhor homem do mundo.
Por muito que, às vezes, me julgue detentora de um comportamento a roçar o irrepreensível, conheço as minhas fragilidades. Não sou tão boa como tu a cortar melão, a fazer crepes e ovos mexidos para o pequeno almoço das miúdas. O meu punho esquerdo carece de técnica e continuo com medo do dentista.
Gosto do teu abraço, do teu aconchego e de adormecer nas tuas pernas. Gosto de te ver despido. Sem luvas. Como se usasses um só coração. E de sentir que me pertence. Gosto-te por aquilo que és. E não é tanga de gaja apaixonada. Se mudava alguma coisa? Claro que sim. Tantas. És insuportável quando viajas de pendura. Esse jeito Shrek de ser... Mudas de t´shirt vezes de mais. Ressonas quando abusas do tinto, do branco e da cerveja. E (ainda) não sabes conjugar os verbos. Já para não falar na demais ortografia...E nessa compulsão por bananas e batidos de bróculos... meu Peter Pan... Quero ser a tua Wendy descalça no parapeito da janela pronta a voar na leveza dos sonhos que, como tu (como nós), não envelhecem. Deus queira que a vida nos mantenha esse norte aceso de que as melhores aventuras da vida são as que nascem no coração.

13.10.16

Um mês de obrigações escolares.



Quando te vi, de livro aberto na mão, enfileirar ao lado da porta para leres os ditongos, confesso que parti de coração apertado. Não os sabias na ponta da língua, mas não foi isso que me incomodou. Incomoda-me a pressão a que te sujeitas porque não te permites falhar.
Fiquei contente quando, no final do dia, me disseste que tinhas recebido uma carinha feliz.
A primária - chamam-lhe agora 1ºciclo - é provavelmente a fase escolar mais dura das nossas vidas. Uma pessoa vem de brincar e pular o dia todo como se não houvesse amanhã; de sestas brutais a seguir ao almoço; de ter gente que nos ata os sapatos enquanto ali ficamos altivas de mãos à cintura como donas do mundo e a pingar do nariz, e de repente, passamos a estar sentadas quase o dia todo, a ter de por a mão no ar para falar, a meter a nossa própria comida numa bandeja e a procurar um lugar no refeitório como na penitenciária de San Quentin.
Com um bocadinho de sorte, temos uma daquelas professoras que são como a nossa tia Maria, queridas e preocupadas ou então não e calha-nos uma daquelas amarguradas que ganham uma merda e foram colocadas a não sei quantos quilómetros de distância de casa e por isso têm pouca paciência para 28 minions que não sabem ao que vieram. É duro!.
Por isso, sempre que lhes pergunto "como correu?" e respondem "bem", fico aliviada.
Sei que não vai ser sempre assim. Vai haver dias em que o bully lhes vai estragar a manhã. E a camisola. Vai haver dias em que o empadão instantâneo não vai cair bem. Vai haver dias de orgulho ferido e mãos esfoladas. Mas, vai haver coisas boas. Amigos para a vida. Chegadas à meta em primeiro. 100 por centos. Satisfazes muitos. E a mãe orgulhosa. É assim. Good days e bad days.
Para já, começou bem, mas mesmo que não tivesse começado é lembrar do Usain Bolt, começa sempre mal na partida e acaba por levar a medalha enquanto o bully dele está em casa dos pais alapado no sofá a enfardar doritos com cerveja a vê-lo na TV em cima do pódio de braço no ar, medalha de ouro no peito e bandeira da Jamaica nas costas. Thats life.
Finalmente, minhas ricas filhas, esqueçam lá o gajo mais popular da escola, toda a gente sabe que vai crescer e tornar-se um totó.

11.10.16

Não entrem na Zara se não querem deixar lá o salário do vosso homem!




Eis-nos chegados à esquizofrenia meteorológica. Não está calor. Também não está frio. E aquela dúvida que nos persegue todo o santo dia, "que merda vou vestir????". Tentamos sacudir a atenção. Juramos que vamos colar nos caracteres para editar - afinal hoje é dia de fecho. Mas, o cinzento do dia que olhas de soslaio sempre que ergues a cabeça do monitor está lá e a pergunta ecoa - junto com uma gargalhada sonoro do palhaço assassino - "que merda vou vestir???".
Assim de repente já não me apetece calçar sandálias, mas os meus botins são todos da colecção passada. Nota mental de resolução prioritária: comprar botins novos.
Entretanto, que jeito me faziam estes agasalhos. Acho que quero todos.

15.9.16

O primeiro dia.






Lembro-me vagamente do meu primeiro dia de escola. O primeiro de todos. Porque coincidiu com a primeira mudança de casa. Vi-me num espaço estranho, com pessoas estranhas. Mas, não associo o início da minha minha formação escolar a tristeza, ainda que exista a possibilidade muitíssimo remota de ter chorado.
Houvesse smartphones e o meu pai teria preenchido a timeline do seu facebook com fotos de uma miúda ruiva e sardenta e a juntar-lhes comentários foleiros.
Acordaste às 5 da manhã. Chamaste. Deitei-me ao teu lado convencida que, como de costume, levarias dois minutos e meio para voltares a adormecer. Estava enganada. De cada vez que me mexia arregalavas as grandes azeitonas escuras para mim e não fossem os mais belos olhos castanhos do mundo quase me sentiria num episódio do Exorcista. Estive uma hora deitada ao teu lado com os pés fora da cama.
De manhã sorriste para as fotos, mas estavas nervosa. Se pudesses, terias ficado em casa, descalçado os sapatos, recuperado o Verão. E à noite, à hora do banho, a terra dos pés, cobriria de castanho a banheira.
Sei que esta noite a água terá menos sujidade e sei também que te safas (safaste sempre) com arte e engenho.
Mas, hoje naquele que é o primeiro dia de uma jornada que quero longa e de sucesso, digo-te morena, que não te presumo perfeita e nunca te amaria menos por errares. Descontrai. Estarei sempre aqui para te abotoar a camisa.

1.9.16

Depois das férias...


Sobre a sombra amaciada de um chapéu de abas largas despedimo-nos das férias. Foi o último dia de praia sem as canceiras da hora.
Não estivemos em destinos paradisíacos nem colocamos no punho as pulseiras do all inclusive. Optamos pela adrenalina do trajecto a duas rodas. Concretizamos o que sonhamos. Sem arrependimentos, "ses" ou "mas". E permitimo-nos fugir.
Reequilibramos a equação de três crianças para dois adultos. Demos conta do recado com agilidade. Mergulhamos na piscina com as miúdas (e sem elas); contamos histórias de embalar; demos gelados e passeios; vimos fogo de artifício e o nascer do sol em cima de um penedo; moldamos castelos na areia; aturamos birras, saudades, sono e picos nos pés. Houve sempre sede a mais e fome a menos. Levamos baldes e barbies, brinquedos velhos do Verão anterior. Nem vale a pena pensar nas vezes que tive de cortar tomate e melão aos pedacinhos.
Não é fácil. Mas temos melhorado.
A família ganha nova configuração, acresce em trabalho, ganha-se em número, empenha-se a liquidez, ganham-se novas regras, abrem-se velhas garrafas, despacham-se as minis como se fossem shots.
Aprendemos os dois que a felicidade a cinco só é possível se contemplar momentos a dois. Requisitamos ajuda, apertamos no orçamento, mas ganhamos o direito a um por do sol só para nós.
Que o #atévelhinhos nos dê a juventude eterna nas pernas para fazermos estas escadarias até ao fim, vezes e vezes sem conta.

2.8.16

Lutas.




Sabes Constança, não te gabo só o sorriso. Gabo-te a garra (das grandes mulheres) como a que tive a sorte de ver nas minhas duas avós. Das três és aquela que parece mais insensível sempre pronta para calçar as luvas, cerrar os punhos e lutar. Deixa-me dizer-te que a vida é isso. E se não formos capazes de lutar por nós mesmos haverá um momento em que seremos engolidos...
Não quero dizer com isto que um meteorito se vai abater sobre a Terra e fazer de nós papinha de alien... nada disso, filha. Hoje, podes não entender o que a mãe quer dizer, mas lá chegará o dia. E tu estás no bom caminho.
Há outra coisa que quero que saibas. As lutas não são sempre más. Não envolvem sempre bruxas e vilões. Há batalhas que te vão fazer deitar a cabeça na almofada e agradecer. Nada te vai saber tão bem como as coisas pelas quais tiveste que lutar. Hoje, por um chocolate. No futuro, por um amor. Mas, luta sempre minha morena. Mão na anca, costas direitas, olho no olho.
Por mim, ficarei aqui (as mães não morrem - sussurro-te à noite) a assistir, assalto após assalto. Ganhes ou percas. E é importante que saibas que não podemos ganhar sempre, mas serás sempre grande, desde que lutes.

Carolina e Victória isto também vale para ambas.

1.8.16

À minha filha maior.


És o meu amor maior. O primeiro.
Tens 11 anos. A Constança acabou de fazer seis. A Victória tem sete. Já acusas a diferença de idades. E se, às vezes, te aproximas em cumplicidade, outras pareces demasiado crescida para emparelhar brincadeiras. Preferes o sofá e o Masterchef.
O teu mundo alarga a cada fracção de segundo, o teu humor oscila como as marés que a Constança tanto teme. Tens acessos de bondade intensa que retratas num abraço, como ontem quando a Victória apertou os dedos, que contrabalançam com raivas incontroláveis difíceis de decifrar.
Nunca sei se acordas de lua cheia ou de humor nublado.
Às vezes queres me perto, outras vezes, parece que só nos toleras à distância longuínqua. Tento lembrar-me de como era quando tinha a tua idade, mas já ando muito longe desses dias.
A minha mãe diz que era pior do que um rapaz. Talvez me lembre das vezes em que tudo me custava sem saber porquê. Sou aprendiz de mãe de pré-adolescente e, às vezes, custa-me muito ir buscar depósitos de energia, tolerância e paciência quando o teu olhar me desafia. Olho-te cada vez mais esguia como se o corpo adivinhasse os subterfúgios do teu ser. Deslizas-me nos abraços, foges-me dos beijos, mas há momentos em que só precisas do calor das minhas mãos.
Vamos mesmo ter que aprender a viver isto juntas.
Somos mãe e filha. Temos nas brechas do teu sol a vontade de sermos cúmplices e amigas. E é sobre essa luz que vou caminhar, mesmo quando a contra-luz te torna cada vez mais esguia.
És o meu amor maior. Aponta essa cena numa das tuas folhinhas perfumadas.

27.7.16

I believe you can fly


Esta manhã armaste-te em R. Kelly e de braços estendidos, tipo Super Homem pelos céus, entoaste, num inglês soviético, o "I beliiiiiieve I can Flyyyyyy". Meu amor, olha que não... voar só o próprio do Clark Kent, mas tu não te sentirias confortável com aquelas calças azuis justinhas e ainda com umas cuecas vermelhas por cima. Por isso, conforma-te com as duas rodas e convém não te distraíres. Ao segundo agudo atinges os 200km/h e voas directamente para o... inferno!
Sabes, lembro-me do Julho do ano passado. Era Domingo. Tínhamos uns bifes à frente e uma caneca de sangria. Foi a primeira vez que falamos de motas... Um ano depois, vai-se a ver, e achaste capaz de voá-las.
E o mais ridículo de tudo é que eu também.
Orgulho nos olhos.

19.7.16

Amigos.


Não me presto a confianças. Reservo-me à minha escolha. Amigos? Poucos. Alguns bons. Alguns muito bons. Alguns extraordinários. Muitos assim-assim. Outros ficaram pelo caminho. Pelas circunstâncias da vida ou porque não passaram no teste da amizade e do tempo. Não me ocorre um amigo que se tivesse perdido por um acto imperdoável (que eu saiba, pelo menos). A verdade é que são poucos e como tal mais fáceis de preservar.
E tenho algumas amizades do caraças. Daquelas impermeáveis aos dias, às semanas, aos meses e em alguns casos, aos anos. É como se o mundo estivesse em pause todo esse tempo.
Posso estar longe dos olhos, mas nunca guardo os meus amigos longe do coração.
Reencontrei uma amiga que já não via e com quem já não privava há tempo demais. Uma irmã (que não tive). Passamos muitos e bons momentos juntas. Partilhamos corridas, motas e capacetes, bola e contra-ataques. Partilhamos tardes chuvosas à boleia e entardeceres que se tornaram noites quentes. Partilhamos pedras mornas e garrafas de vodka. Partilhamos compras e camisolas da Mango. Angústias e expectativas. Sonhamos. Acordamos para a vida. E sonhamos outra vez.
Reencontrámo-nos no início deste ano. E tem vezes que bate uma filha da puta de uma nostalgia de quando éramos apenas nós e as nossas scooters e a principal preocupação era chegar a casa a tempo do jantar.
Quando me pedem para escrever sobre a amizade, ocorre-me apenas um conselho.
Não desapareçam. Agarrem na cena que têm no bolso, nas malas, na mão (a sério há quem ande sempre com ele na mão) e em vez de espreitarem a janela do facebook ou do instagram usem-no para telefonar. Não sabiam??? O iphone dá para telefonar!!! Combinem uma coisa qualquer. Café, chá, scones, cinema, futebolada, praia, compras, jantarada, aulas de fitness...qualquer coisa.
O facebook é porreiro mas toda a gente sabe que aquela foto do Rock In Rio a 1km do palco mundo com os dentes arreganhados não nos faz tão feliz como um abraço e uma gargalhada juntos na esplanada com duas fresquinhas e uns caracóis.
Não deixem cair os vossos amigos. Peguem-lhes ao colo se preciso for.

15.7.16

Portugal!


Levamos quase uma semana de peito cheio. Caminhamos mais firmes. E orgulha-nos um pouco mais o sangue português que nos corre nas veias.
Não foi o futebol. Não foram os jogos que dizem que não ganhamos. Foi o coração. Aquele que se descortina quando se esquece o esférico e se analisa as entrelinhas de um jogo épico.
Dizem que somos pequenos. Tristes. Que cantamos fado e temos bigode e isso vale para as mulheres também.
Dizem que somos chicos-espertos. Preguiçosos. Que não trabalhamos e temos feriados a mais.
Dizem que o nosso melhor futebolista é vaidoso, fingido, petulante.
Dizem que o nosso melhor treinador é arrogante. E que nós somos nojentos, porcos e não merecemos ganhar.
Dizem que ganhamos sem ganhar... Diz que sim. Mas, eu vi-nos ganhar sem nunca perdermos.
Básica estupidez. Observações peregrinas (como digo ao homem).
O que eu vi foi um povo tipicamente arrogante e mesquinho vergar-se perante um gigante Portugal.
Vi o melhor jogador do mundo ser o melhor companheiro do mundo. A ser o melhor em campo mesmo estando fora dele.
Vi o miúdo que marcava golos em troca de costeletas e que ninguém valorizava resolver o jogo e mudar o destino de um país. Foda-se dá vontade de chorar só de lembrar.
Parecia um remake do Karaté-Kid. Portugal é o Daniel Son, o lingrinhas que os grandes querem aviar, mas que apesar dos empurrões e pontapés, acredita em si próprio e mesmo no final do combate quando lhe limpam a perna, não baixa os braços e com um só golpe consegue o improvável.
Fez-se justiça e afinal os bons ganham sempre.
Com o Campeonato da Europa podemos provar aos nossos filhos que não devemos desistir, que para conseguirmos temos de tentar. Que os maus não ganham. Que somos capazes quando queremos muito e quando não temos medo. Que devemos acreditar mesmo quando mais ninguém acredita.

Por fim, descansa em paz Eça. Os vencidos da vida... venceram.

7.7.16

Estamos na final e o resto: que sa foda!






Há 12 anos, ainda tinhas umas borbulhas, começavas a botar corpo e havia já quem dissesse que tinhas uns pés de outro mundo. Mas, tu, Cristiano, filho da Dona Dolores, tocaste-me pelo coração. Estava ali a imagem de quem não joga apenas como os melhores. Mas, de quem quer, de quem se esfola e de quem sofre. Os jogadores bem podem ter os pés mais dotados, as estratégias mais inteligentes, somar golos, bater recordes, acumular estatísticas, mas quem sofre assim, está do lado dos homens. E por isso, Cristiano, é tão fácil gostar de ti. Sobretudo quando te irritas. Quando te impões. Quando te sacrificas. O resto, é como tu dizes: que sa foda.
Tu, Cristiano, merecias ganhar isto antes de a idade te retirar velocidade aos sprints e nos afastar dos teus pés de outro planeta.
Estes emigrantes portugueses em França - a maior comunidade portuguesa pelo mundo - que fazem quilómetros, que não arredam pé dia e noite, que gritam por Portugal e pelo nome de todos os jogadores com a garganta e a espinha, estes emigrantes que deixaram para trás a miséria, mas nunca o seu país mereciam tanto, tanto, esta alegria. Ali, em França, por estes dias, a Selecção é a casa que ficou para trás. É coração, apenas coração.
Não havia melhor lugar no mundo para nos vingarmos daquele 2004 que ainda nos amarga.
Cristiano, podes mandar ao lago os microfones que quiseres, fazer os piretes que quiseres, ter as mulheres que quiseres. Podes irritar-te quando não te passarem a bola, olhar para o céu quando te faltarem as pernas. Porque ninguém quer isto como tu. Ninguém quer tanto salvar-nos como tu. Ninguém vai rir ou chorar como tu.

Mas, se perdermos: que sa foda.

4.7.16

Deixem o Verão acontecer.




O Verão está a acontecer outra vez. Em mil e uma coisas, tem a ligeireza de uma rapariga de cabelos soltos e pés descalços. Aquela leveza estival...Acordar e adormecer. Começar e recomeçar.
A frescura limpa das manhãs antes de o mundo começar a aquecer. O céu livre e azul. Os sons e os cheiros. Uma luz avermelhada que só agora.
A lua. As estrelas. A chama das velas. As refeições lá fora.
O espírito quer-se fácil como um dia de Verão.
A aritmética é simples e imediata como beber água fresca.
A história de cada Verão passa por aquela mesa lá de fora. Os almoços ligeiros. Os jantares que se prolongam até que as conversas sejam quase um sussurro pelas noites dentro.
Guardar e celebrar como um acontecimento maravilhoso. Cada grão de areia que é o nosso tempo de vida. Sempre a escorrer num movimento contínuo e imperceptível. Por isso, volta e meia, viro ao contrário a ampulheta que é vidro frágil como o tempo só para não me esquecer que tudo isto é sempre areia que nos escorre dos dedos.

1.7.16

Tenho algumas saudades de escrever disparates...



Como escrever sobre a vida íntima...ainda que nunca o fizesse. Eu???? Jamais!!!! Mas, não entendam vida íntima por higiene pessoal, por exemplo, e não presumam que nunca falaria sobre as toalhitas de higiene íntima que se usam para perfumar a pipi ou sobre a marca e, principalmente, o tamanho dos tampões. Sobre isso, falo na boa.
E sobre sexo também. Tipo, frequência da actividade sexual, as maiores loucuras, recorde diário, o que fazemos antes e depois, com barulho ou em silêncio, demorado ou rapidinha.... Mas, isso fica para um outro post (juro por todas as alminhas).
Retomando, há um assunto tabu, absolutamente proibido no seio desta família que assume o primeiro lugar na lista das intimidades. Refiro-me a cocó. Durante muito tempo convenci-me, e convenci as mulheres desta casa, que as princesas não fazem cocó. É demasiado constrangedor imaginar uma gaja boa, em cima de uns saltos, enfiada num Elie Saab, sentada na sanita a arrear o calhau... Deus me livre!!!! Isso nunca acontece.
O problema é que as filhas crescem, ganham vida própria e armadas em engraçadinhas decidem brincar com a intimidade escatológica da mãe.
Carolina: imagina que a minha mãe só faz cocó em casa.
Mãe: isso não é verdade. A tua mãe não faz cocó em lado nenhum.
Carolina: ó mãe não inventes. Ainda hoje, podias ter feito cocó no café e obrigaste-nos a ir a casa...ainda por cima as estradas estavam fechadas e tivemos que dar uma grande volta.
Mãe: tudo falso. Eu não faço cocó!!!
Constança: ó mãe, eu já te vi.
Victória: também não dás puns na cama?
Constança: ó Victória também não exageres, na cama não.
E assim se expõe uma mãe que durante um ano convenceu o homem que não fazia cocó.

29.6.16

Descobrimos uma nova comunidade e vamos converter-nos.





Passei os Verões da minha infância a fazer campismo.
A tenda dos meus pai era azul e durante muito tempo associava determinados cheiros àquela estadia que me lembra das minhas avós, dos meus cabelos laranja e da loucinha com que me sentava a brincar na areia.
Havia um parque, um grande pavilhão e os locais de recolha de água de que me orgulhava quando me passaram a confiar tal tarefa.
Depois, o Parque de Campismo da Apúlia morreu. Deixaram-no como que abandonado e nem sei se continua a existir.
Não voltei a acampar. Não surgiram mais oportunidades e também não as procurei.
No Sábado, a convite de um casal amigo que faz do campismo um estilo de vida - daqueles cuja tenda até fala e serve cafezinho - fomos conhecer o Parque de Campismo da Penha, aqui mesmo ao pé de casa.
Confesso que não tinha grandes expectativas. Como a Selecção jogava nessa noite ficamos para jantar. Quando me abeirei da comunidade recuei 20 anos na minha vida, como se olhasse o pequeno pónei cor de rosa pela primeira vez e me preparasse para lhe afagar as longas crinas. Até a tenda era azul como a do meu pai.
Ora, a comunidade tem lá um espacinho e depois de perceberem que somos gente boa, dada a brindes e clássicos dos anos 80 aceitaram-nos.
No próximo final de semana pegamos na criançada e subimos à montanha.

28.6.16

Girls.


Sempre tive uma indisfarçável queda por meninas.
São românticas, apaixonadas, choronas, consolam-se com abraços ou com sapatos de barbie ao jeito de "toma lá estes chanel rosa choque em troca de um sorriso de orelha a orelha", passeiam de mãos dadas, gritam a uma só voz como se pertencessem ao coro da Gulbenkian desde os 2 anos de idade e brincam aninhadas horas a fio. Tudo o que precisam é de uns trapos, de umas bonecas de cabelo comprido e de uns Ken's de preferência sem roupa.
Naquelas horas que antecederam e precederam o jantar, estas quatro fizeram de tudo. De casamentos a divórcios, luas de mel, férias desportivas nas Maldivas e ainda o mortal atropelamento da sogra.

PS: A Constança não consta da última foto porque tem medo da água.
PS1: Indisfarçável queda para meninas... Ah, ah... mas no terceiro brinda-me com um macho.