No passado era optimista. Fui-o mesmo quando, com 20 anos, um neurocirurgião me disse que o meu pai ia morrer. Não acreditei, mas o meu pai morreu. Fui-o, mesmo quando ele se acabava diante de mim. Acreditei num milagre. Porque não? Rezei. Não adiantou. O meu pai morreu. Já lá vão quase nove anos...nove anos em que todos os dias me debato com a sua ausência e todos os dias, digo para mim “e se aqui estivesses”...Terias orgulho de mim? Orgulho delas? Farias o que eu fiz? Pensarias como eu pensei? “E se aqui estivesses?”, digo para mim...
Quis fritar batatas fritas enquanto, uns quilômetros abaixo, velavam o meu pai morto. Não quis chorar, mas quase nunca consegui. Quase sempre o fiz, com uma disciplina diária, nos primeiros seis meses. Era uma sensação de amputação...
Fui optimista, no passado. Hoje já não sou. A brutalidade de o ter perdido despertou-me para a mortalidade e despertou-me mais ainda depois de as ter comigo.
Mas sou feliz...Ah! Se sou! Basta olhá-las. Qual Louvre? Qual Eiffel Tower da primeira vez em Paris. E é por isso que sofro de cada vez que as deixo...É uma sensação de amputação... Só sou completa quando as tenho...Quando as tenho de baixo da asa.
Ontem, pequena Sassa estreou-se no infantário. Será temporário, mas é lá que vai estar nos próximos 30 dias. Depois de lhe quererem dar leite de vaca e iogurtes naturais Agros, disseram-me, com toda a naturalidade do mundo, que não tomou o leite!!! Valeram-me os calmantes e o Brufen... Quando me viu – já passavam das 5 – agarrou-me como se não houvesse amanhã. E se falasse...se alguém traduzisse aqueles gritinhos, certamente que diriam, “anda cá minha maldita que me abandonaste entre estes seres que tomam leite de uma espécie que não a sua”.
Hoje foi o dia a seguir...Pequena Sassa continua lá... Não sei se dorme. Não sei se deambula de colo em colo (gosta pouco, gosta)...
Pequena Kiki deve ensaiar para a festa de sábado. Ontem quando a busquei - pela ordem imposta geograficamente ela é a primeira a ser recolhida - a primeira coisa que me perguntou foi pela mana. Até o seu coração “pequenino” estava apertado pela estréia da mana ainda bebé, entre os demais.
“Mamã, ela não tem de levar bata?”; “Mamã, vai de fato de treino porque vai ter ginástica?”; “Mamã achas que a vão pôr a depenicar? É melhor dizeres que ainda não sabe comer arroz e essas coisas”. Ah, “e lembra-lhes que também não sabe ir à casa de banho”... Pois, por acaso ocorreu-me todas estas recomendações e em boa verdade acho que disse tudo, menos a parte da casa de banho...
Todas as crianças são, sem dúvida, o melhor do mundo. Pois as minhas conseguem ser ainda melhores...
Sabem, é uma sensação de amputação...

Imagino as palavras a levitar na tua mente e belas frases a construírem-se através das tuas unhas de gel!!
ResponderEliminarAmiga reconheceria os teus textos em qualquer local, a forma leve e tocante como expões os sentimentos continua a fascinar-me... (mesmo passados tantos anos!!)
Muito bonito este texto, parabéns...