A menina das sardas

Para a Carolina e para a Constança. E para o castanho curioso dos seus olhos...







17.4.14

Família (a minha)


Todos os dias trago em mim a melhor família do mundo. Raras são as vezes que o digo. Porque são coisas minhas. Porque não me dou ao amor que se mostra sem se fazer. Que se exibe nas mãos apertadas ou nos braços sobre o ombro. Não me dou ao amor explícito.
Mas trago-o sempre em mim.

16.4.14

Mas que gente é esta?

Nunca morri de susto. Poucos me ouvem queixar. Sou optimista. Ou costumava ser. Acreditava nas pessoas e no país. Até hoje.
Sem preparação prévia dei de caras com a realidade. Esbarrei-me com ela e a topada que me deu doeu mais à noite quando arrefeceu. Dei por mim a pensar que futuro teremos? De que é feita esta gente?
Não discuto desemprego nem emigração. Vejo tantas vezes a miséria de dinheiro, de comida e conforto, mas custa-me mais a miséria de carácter. Eu que relativizo. Que vejo sempre o copo meio cheio e descortino a luz no mais opaco dos caminhos. Esbarrei-me com o português que não faz, não quer fazer e ainda desdenha dos que fazem. Gente nova, mais nova do que eu. Gente sem dinheiro a quem foi dada a hipótese de aperfeiçoarem qualificações e ainda tirarem algum. Com transporte e comida. Só lucro. Não era suficiente. Todos recusaram. Reclamaram. Que não, que não era para eles, que tinham filhos pequenos e não se podiam meter nisso, que é perda de tempo.
Gente nova, mais nova do que eu. Com cabeça de avestruz a dormir em cama de corpo e meio na casa da mãe.

Deste pequeno grande amor.







15.4.14

Estamos de volta à escola


A minha ligação à Alemanha vem da infância. Fez-se das viagens do meu pai. Foi da Alemanha que veio o meu primeiro Sega que intermediou uma longa amizade com o Sonic.
Quando no final do meu 9º ano tive de optar entre continuar com o francês ou iniciar uma nova língua não hesitei. Escolhi alemão. Não é fácil não senhor, mas compensei a dificuldade com uma pronúncia quase perfeita.
Ficou-me do alemão muita coisa, mas com o tempo, com o facto de nunca o usar, excepto nos pequenos almoços com sê dona Merkel, resta-me o básico.
Decidi, então, que como não tenho crianças, cães, marido, trabalho nem que comprar pão todos os dias, devia voltar à universidade e agarrar no alemão como deve ser.
Só para avisar que a partir de Maio vai ser um rodopio só.

Como derreter um cubo gelo (como eu)

Red.






Estas imagens registam duas coisas. A primeira vez em sandálias da Constança. E a primeira vez da Carolina com meias da cor da pele.

12.4.14

Quem tinha de perceber, percebeu!!!

Nem sempre há fio condutor. Menos ainda quando o tempo de outrém é dispendido com cenas desinteressantes. Tipo, revisitar blogues, com folhos e rendas. E varandas sujas.
Comentários despropositados esperam respostas cordiais com... Fio condutor.
Estou-lhe grata por me visitar amiúde. Tipo, sempre. Também tenho essa mania estranha de detestar ficção científica e comprar livros sobre o tema. Ou não gostar de cebola e pedir sempre muita na salada. Mas isso sou eu. Sou maluca, incoerente. Sem fio condutor.

Volte sempre ;-)

10.4.14

Aos anónimos fofinhos



Aqui deitada na minha cama importada de Itália com a encosta da Penha do meu lado esquerdo, o meu olhar centra-se na varanda. Podia mirar o Pio IX e lembrar-me de beijos apaixonados e amassos ou das manhãs de Domingo nas escadas do santuário com o vestidinho de griffe. Folhos e rendas. Mas a minha atenção está toda concentrada na varanda. Tudo o que me apetece é botar a mão a um balde, enchê-lo de lixívia e duas gotas de lava tudo com cheiro a limão, agarrar na vassoura. E esfregar. Esfregar até ganhar farpas nas mãos. Esfregar até me sair o gel das unhas. Mas, era capaz de não dar jeito. Saí há minutos do cabeleireiro e deixei lá um salário com a descoloração e o tratamento de keratina.
Agora sim. Bate a bota com a perdigota. Loira platinada. Folhos e rendas. E os cromados do carro novo que chega para a Páscoa. Oh pá queixem-se da varanda suja, esqueçam os cavalos do bicho, menino para fazer grande escarcéu nas minhas chegadas matinais depois dos serões no Chiado.
Ainda o meu pai não tinha arrefecido na urna lacada já eu estourava em Madrid o cartão cujo código lhe arranquei no leito da morte.
Comprei rendas. E folhos. E assim tenho estado na vida. Foi-se o velhote. Vieram as duas criaturas que estão para mim como a Carolina Herrera com as minhas iniciais. Tenho-as como um acessório valioso. Visto-lhes rendas. E folhos. Dou-lhes uma palmadinha nas costas ao deitar e ao acordar. De repente perdi-me na idade das miúdas. Nem sei se a mais novinha já dorme a noite toda. Ou se ainda usa fralda. Também isso não é importante. Conheço-lhes o guarda roupa de trás para a frente. Organizo-lhes o outfit em consonância cromática. Tem dias que perco a cabeça e levo-as à escola de mão dada naquela da fotografia.
E assim tenho estado na vida. Entre rendas. E folhos.
Mas agora olhando a varanda acho que vou botar nas miúdas, rendas e folhos, e fazê-las esfregar a varanda. Pode ser que estraguem uns vestidos baratos que tenho para ali - não me custarem mais de 500 euros - e assim já não me custa transformá-los em panos de cozinha.

PS: tenho tantos sapatos que já os ponho de baixo da cama. Devem estar cheios de pó, né ;-)

Os nossos dias. A Carolina e eu.



A Carolina está de férias. Não frequenta ATL. Segue-me, desde que se faz ao dia. É ela quem me acorda. Mais, ou menos apressada, depende do entusiasmo que reserva para as próximas horas. No vagar, encolhe-se no espaço que resta. Na pressa, descobre-me e abre a janela. Veste-se. Resiste ao pente e à água no rosto. E espreita o que escrevo enquanto escrevo. Já lhe pedi que não o faça. Não gosto. Leva-me a inspiração a curiosidade.
São dias meus e dela. Conversamos mais. Passeamos abraçadas. Ou de mão dada. Acompanha-me na gestão familiar. E estorva-me no trabalho. Porque tem sempre sede. E fome. E o livro que quer não está na estante. Tem ideias malucas, como andar a pé.
São dias mais nossos como quando os dias há quatro anos eram feitos pelas duas.
Não sei o que é isso de ser, ou ter, irmãos. Não sei dizer se é mais difícil chegar primeiro ou chegar depois. Mas estou consciente que a Constança me consome o tempo e usa a dependência de ainda bebé para se chegar mais. Mais colo. Mais colheres de sopa. Mais atenção. Mais choro. Mais dependência.
Tento, até ao limite das minhas forças, estar nas duas frentes. E quando não estou é porque a Carolina me permite, pela sua autonomia, descurar tarefas.
Estes dias, mais nossos, compensam a absorção diária da Constança.
Não sei se é mais difícil chegar primeiro ou chegar depois. Conheço apenas a realidade de ninguém chegar. E a falta que faz esse abraço (de irmão) na perda.

9.4.14

Mãe, as princesas fazem cocó?

Não sei como chamar a minha filha Constança à terra. Nem sei se o quero fazer. Tem dias que me apetece dizer-lhe que os bosques não são todos encantados, que há florestas escuras e mal cheirosas porque as pessoas as usam em viagem para se aliviarem. Que há castelos assombrados. Que os ratos não são todos brancos com nariz rosado, há ratazanas carregadinhas de doenças, pretas e de cauda comprida. Que no mar não há só golfinhos e nemos, há tubarões que dão uma barbatana para palitarem os dentes connosco.
Tudo porque lhe peço, Constança pinta o mar. Pode ser de cor de rosa? Pergunta. E insiste, "posso pintar este golfinho de cor de rosa?".
Então de que cor é o mar e o céu? É azul, como tão bem sabe. Porque raio há-de querer tudo cor de rosa?
Mas depois rendo-me ao seu mundo encantado, de princesas magras com vestidos compridos e cor de rosa, e longos cabelos, que casam com príncipes gostosos e vivem em palácios, cor de rosa e têm cães cor de rosa. Porque ela acredita mesmo nisso e a prová-lo está uma inquietação recente para a qual me questionou:
- mãe, as princesas fazem cocó?

Da minha vida.


Mourinho.


Estas coisas que nos fazem.





Às vezes arrependo-me de cenas...

E não são poucas as vezes. Não fossem julgar que sou daquelas espertalhonas que NUNCA se arrependem de nada porque tudo são aprendizagens. Eu cá digo que havia tanta maneira bem mais inteligente e menos penosa de aprender.
É interminável a minha lista de arrependimentos. Uns piores. Outros nem tanto. Uns que ainda me apertam a alma. Outros que até me fazem rir do disparate. Ou simplesmente encolher os ombros e pensar "que se f***".
Gosto de gente velha. Daqueles velhos com aparência humilde ou dos velhos elegantes cientes que a idade é um posto. O que gosto de ver velhas ligeiramente maquilhadas e cheirosas. Velhas com brio.
Os velhos têm um quê de criança quando nos vêm falar no facetime. A boca aberta em estupefacção.
Gosto do conflito de gerações. E tenho para mim que o legado do nosso passado será tão importante quanto o que fizermos do nosso futuro.
Há pouco, aproximo-me da caixa do Lidl (por falar nisso, atenção administradores, tantas vezes falei aqui do Lidl que já me devem amendoins para todo o Verão), no tapete estavam colocados três artigos, entre eles, um garrafão de água, em pé, que cai ao chão assim que o funcionário puxa o tapete. Olho e vejo uma idosa aproximar-se apressada para apanhar o seu garrafão. Um homem, ao lado, achou que não lhe caberia apanhá-lo, a velha que se agachasse. Agachei-me eu e apanhei o garrafão à senhora de idade que por sua vez, olhou para o garrafão e disse "vá lá que não rebentou". Oi??? E que tal um obrigada? Um sorrisinho grato??? Na, porque eu sou velha e tu SÓ tinhas que o apanhar.
Ok. Arrependida. Para a próxima vais levar 6 minutos a apanhar o garrafão. 3 para descer. Outros tantos para subir.
O pior é que a safada senhora de idade, que - recorde-se - tinha três artigos sobre o tapete, aos poucos conseguiu enchê-lo de compras para o mês, enquanto ia e vinha, vezes sem conta.

8.4.14

As nossas crianças.






Percebo que envelhecemos bem cada vez que os olho. Pequenas figuras daquilo que fomos. Replicas perfeitas ao seu jeito. Rebelde. Sensível. Independente. Feminina. Felizes, os quatro. Percebo que estamos a fazer um bom trabalho cada vez que os vejo gritarem, abraçarem-se, dispararem balas uns contra os outros, caçarem fantasmas... São nossos. Cada vez mais nossos. E são uns dos outros. Porque acredito que se gostem.
Às nossas crianças desejo a nossa infância, entre as portas que se abriam sem bater. O cimento quente nos nossos pés descalços e aquele horizonte alaranjado dos entardeceres de Verão. Desejo as noites de S. João. A casa da árvore. Desejo avós como as que tivemos. Piqueniques no campo. O rio. E o campismo de praia. Fogo do conselho. Cânticos de Natal consoada fora. Cães, gatos, borboletas e joaninhas em latas de salsicha.

          Às nossas crianças desejo a nossa infância.

Eu quero ganhar a vida a desfilar #2