Já notaram – não será uma característica típica da população nortenha – que todas as manhãs há uma caça ao jornal na pastelaria onde tomamos o pequeno almoço. Não???? Choquei! No café que freqüento já esteve mais longe de haver estalo, chávenas pelo ar, rasteiras, carros arranhados ou pneus furados. E tudo por causa do JN, de O Jogo e de outras revistas cor de rosa e até publicações de fornecedores de café. Mas como quem se apodere de mais folhas na sua mesa é rei, vale tudo na caça ao jornal e à revista.
Eu não sou pessoa dessas coisas (ainda se fosse um vestidinho ou um parzinho de sapatos, ia à luta). Mas, o meu gajo é. E faz cenas dignas de se enfiar num buraquinho. Ele e outros. Tipo levantarem-se ao mesmo tempo. Um agarra numa ponta, outro agarra na outra. Enquanto cada um puxa o jornal para seu lado, dizem “faz favor, deixe estar”; “não, não pode ler”. Mas ninguém o larga.
Há estes. Há os que lêem o jornal encostado aos óculos porque na verdade já não vêm nada, nem os títulos gordos. Há as mulheres que folheiam porque é fino. Eu que compro as minhas próprias revistinhas. E o casal mais pavoroso que alguma vez vi: os vampiros do jornais. Ela, óculos escuros, faça...sol ou chuva. Botas até ao joelho... faça sol ou chuva. Às vezes leva chapéu e é a típica velha que todos os dias olha ao espelho e pensa “sou tão boa. Ainda tenho tudo no sitio e cacei um ex guarda prisional”. Têm um mercedes velhinho (como eles). Pedem dois galões levam broa (no Natal levaram rabanadas) escondida nos sacos dos comprimidos. Mas, o pior, o que me deixa à beirinha de um ataque de fúria é o assalto descarado aos jornais e revistas de toda a gente. Tipo levantas-te para apanhar um pacote de açúcar que caiu ao chão e pimba foi-se o jornal. Viras-te para ver o que o benjamim deitou abaixo e pimba lá foi outro. Já estive mais longe de me passar com eles. Desde que se dirigiram à minha mesa enquanto eu lia o JN e me perguntaram com toda a naturalidade do mundo “posso pegar?”. Mas, quê? Não está a ver que estou a ler? Tipo jornal aberto na mesa. “Ainda não terminei” respondo com a maior cordialidade que me foi possível. A mulher destilou veneno. Desde essa altura que evito o contacto visual. Não vá a coisa dar para o torto.

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