9.9.11

Público vs Privado



Vestia blumarine. No cabelo um laço branco XL. Estava solto porque o dia já levava muitas horas e quando assim é não aguenta o apanhado. Não saiu de casa sem o blush e o baton. Continua renitente ao rimel porque de vez em quando ainda chora, seja pelo pão que não quer terminar ou pela goma que come em cima do almoço. Chegou de carro embora tivesse reivindicado uma caminhada até à escola.
Não encontrou a S, a L, nem a M. Encontrou meninos suados já fartos de correr. Encontrou mães e avós de  aventais com as molas da roupa esquecidas. Chinelos nos pés e mãos na cinta, ar apressado, porque o estrugido ficou ao lume. A sopa acabou no almoço e só lhe ocorreu fazer um tacho de arroz. Depois da reunião desenrascava-se com salsinhas e ovos. Algumas tinham crianças no colo. Causou-lhe especial estranheza o facto de falarem sem erguer o braço. Nem tanto de trocarem os "v" pelos "b"ou de conjugarem mal os verbos, mas de atropelarem as suas frases com as da professora. De não respeitarem a premissa que aprendeu nos últimos quatro anos, "enquanto um menino fala, os outros ouvem". Ninguém ouvia. Pior, ninguém parecia interessado em ouvir.
No recreio, a maioria dos meninos tinha desaparecido. Correu para casa. Tinha nas mãos a nota de boas vindas, a lista do material e algumas regras e conselhos para o arranque do primeiro ano lectivo. Sentou-se na cadeira, colocou o cinto e perguntou, "depois de comprarmos o material posso voltar para o meu colégio?".

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