1.5.12

O post que faltava para completar o anterior




Miguel Esteves Cardoso continua às voltas no carrossel do cancro, até à morte.
É como uma tarde de domingo na feira popular. É possível que às vezes o vejamos com algodão doce numa mão e pipocas na outra. Mas, ao fim e ao cabo, a sua tarde de domingo vai terminar no comboio fantasma. Entre olhares mortiços, frascos de soro e picadas nas veias.
Em 2009, dava conta do cancro da sua mulher em mais um tocante artigo de opinião que dirigiu a ela que naquela manha dava entrada pela primeira vez no IPO de Lisboa.

Quando sair este jornal, a Maria João e eu estaremos a caminho do IPO de Lisboa, à porta do qual compraremos o PÚBLICO de hoje. Hoje ela será internada e hoje à noite, desde o mês de Setembro do ano passado, será a primeira vez que dormiremos sem ser juntos.
O meu plano é que, quando me expulsarem do IPO, ela se lembre de ir ler o PÚBLICO... e leia esta crónica a dizer que já estou cheio de saudades dela. É a melhor maneira que tenho de estar perto dela, quando não me deixam estar. Mesmo ficando num hotel a 30 passos dela, dói-me de muito mais longe...
O IPO consegue ser uma segunda casa. Nenhum outro hospital consegue ser isso. Podem ser hospitais muito bons. Mas não são como uma casa. O IPO é. Há uma alegria, um humor, uma dedicação e uma solidariedade, bem-educada e generosa, que não poderiam ser mais diferentes da nossa atitude e maneira de ser - resignada, fatalista e piegas - que são o default institucional da nacionalidade portuguesa. É graxa? Para que tratem bem a Maria João? Talvez seja. Mas é merecida. Até porque toda a gente que os três IPO de Portugal tratam é tratada como se tivesse direito a todas as regalias. Há muitos elogios que, não obstante serem feitos para nos beneficiarem, não deixam de ser absolutamente justos e justificados.
Este é um deles. Eu estou aqui ao pé de ti. Como tu estás ao pé de mim. Chorar em público é como pedir que nada de mau nos aconteça. É uma sorte. É o contrário do luto. Volta para mim".



Já na edição de 1 de julho do ano passado, Miguel vivia um dos momentos doces, do algodão que se desfaz na boca. E escreve:

 «Em Julho do ano passado, ainda não sabíamos do cancro da Maria João e passámos o mês na praia. Mas o cancro já lá estava e, em Agosto, quando o descobrimos, o mês anterior desapareceu. Aquele sol soube-nos mal. O Verão acabou e mudámo-nos da praia para o IPO. Agora estamos num Julho sem cancro. O mês de Julho de 2009 foi um mês doente, sem sabermos. Este vai ser um Julho que sabemos ser de saúde. E Agosto será só Agosto, como se fosse o primeiro das nossas vidas.
O clima aqui em Colares tem-se acertado com a convalescença da Maria João. Passou um ano que durou muitos anos, com dias que duraram anos. Mas passou. Chegámos ao lugar onde estávamos com tudo o que tínhamos - muito mais do que tínhamos - menos o cancro. Nunca fiando, mas confiando e sabendo como desconfiar. Bom mês de Julho. Bom dia, meu amor.» 

No presente, já todos sabemos o que disse.

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