10.5.11

Porque vale a pena ser jornalista




Há pouco estive na loja de um colega que além de me dizer que não pareço portuguesa falou mal dos jornalistas. Perguntei-lhe se deveria entender a primeira observação como um elogio ou uma critica. Ele respondeu-me um elogio. Então tive de lhe perguntar o que têm de errado as mulheres portuguesas onde me incluo. A conversa não se prolongou muito mais. E as "farpas" aos jornalistas foram atiradas aos colegas do desporto.
Mas, sim há uma tendência para dizer mal dos jornalistas. Desconfiar dos jornalistas. Negar o que dizem os jornalistas. Olhar de lado os jornslistas, sempre com um pé atrás não vá sacarmos do gravador a qualquer momento. Tipo, a meio do pequeno almoço; a atravessar a estrada; no cabeleireiro...
A minha vida de jornalista (só por acaso comemoro este ano uma década de carreira) tem sido vasta (não me ocorreu adjectivo melhor). Noto a minha evolução. Desde o medo (e a vergonha) de perguntar até ao descaramento de perguntar tudo (e tudo é mesmo tudo... o mais disparatado se preciso for porque um dia, uma colega bem mais velha me disse que o segredo está aí, em não ter medo de perguntar) e interromper os "fala baratos". Desde as conferencias de imprensa que às vezes não demoravam mais de 5 minutos, às bandas de garagem, às reuniões de câmara até às grandes histórias do presente. Eu sou dessas jornalistas. Das do terreno. Das que cheiram e desfalecem e pedem copos de água com açúcar. Daquelas que – se não fossem um cubo de gelo – choram com os entrevistados. E sentem. E se colocam naquela casa no momento da derrocada. E tenho tido o prazer de conhecer (e contar) tantas histórias. Uma das últimas não posso deixar de partilhar. Fui a uma casa – pobre com migalhas espalhadas pelo chão e um odor que ainda era de morte – acabada de enlutar porque um dos membros (o pai) se tinha atirado de uma ponte. Deixou mulher (operária) e um filho menor com um problema de saúde que dá pelo nome de nanismo diastrófico. Trocando por miúdos, é uma criança muito limitada, mas que dadas as suas limitações é até muito desenrascado. Para terem uma idéia, tem 15 anos e mede 1.20m.  A casa onde vivem é do banco. E o banco reclama de um empréstimo que não é pago há meio ano.
Dois dias depois da reportagem ser publicada recebi o telefonema de um anônimo (e agora o meu director diria que ninguém é anônimo) que quer ajudar esta família. E o melhor é que não se ficou pelas intenções e neste momento sei que já abriu uma conta no nome do miúdo onde todos os meses depositará uma quantia de dinheiro. E fez mais, pôs a advogada da sua empresa a tratar do empréstimo bancário. E eu...rejubilei por chegar às pessoas desta forma. Por lhes tocar e contribuir para a partilha. E por isso é tão bom ser o que sou...

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