Desde o lugar em que me encontro tenho uma vista privilegiada. Gosto de aqui estar. Tudo está (estranhamente) calmo. Sossegado. Um silêncio, pouco habitual, que quase fere.
De manhã já me perdi em saias e casacos. Quem me conhece sabe que sou gaja para usar vestidos todos os dias, mas hoje não comprei nenhum. O meu homem ficou muito chateado, “como é que é possível continuares a comprar roupa?”, questionou-me. “Como é que é possível fazeres-me essa pergunta?”, retorqui. Gaja que é gaja compra roupa! O closet de gaja, nestas coisas, é como o coração de mãe, há sempre lugar para mais um (ou dois, ou três and so on). Senti-me ofendida com aquela questão. Pareceu-me completamente despropositada. Como as simulações constantes que estava prestes a cair para o lado tal era o seu estado febril. E a tosse asmática. E o ranho no nariz. Homens!
Pois comprei e compraria mais. Mas isto os saldos não são só um dia.
Durante a manhã ainda passei pela Unidade de Saúde (bem haja ao ministro que inventou estes paraísos entre os centros sobrelotados, as horas intermináveis de espera, e os hospitais com cada vez menos médicos). Na minha USF, não espero. Pasmem-se. Mas é verdade. Muitas vezes é até a médica que espera por mim, porque entre abre mala, abre carrinho, desaperta cinto, tira Constança, senta Constança que invariavelmente liga o “modo cobra” porque não quer sentar, põe cinto, pendura saco, faz ficha, lá se vão os 15 minutos de antecedência face à hora da consulta. Não há dúvidas. Eu disse que o meu diagnóstico era infalível. A médica confirmou: varicela. Sem alarmes e com alguma estupefacção à mistura porque Constancinha continua arrebitada que só ela. Sem medicamentos. Em isolamento. Uma semana em casa. Eu sei quem não vai gostar nada disto, mas como dizia a minha querida avó, “o que não tem remédio, remediado está”. Mãe sofre. Chefe de mãe também.
Continuam infrutíferas as minhas tentativas para minha Carolina se auto-alimentar. Hoje negociámos. Garantiu-me que quando a irmã fizer um ano - o que vai acontecer dentro de dois meses e meio - passa a comer pela própria mão. De modo que não é assim nada de transcendente porque no colégio já o faz desde os dois anos, não vão vocês pensar que a “piquena” sofre de algum atraso de desenvolvimento.
O silêncio mantém-se. Quase fere.

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