No norte, as pessoas - na sua maioria - continuam a recusar autópsias. Não acham graça, a bisturis e alunos de medicina a esmiuçar as entranhas do ente que se foi.
Estão-se nas tintas para o que originou a morte da pessoa que meia hora antes tinha comida bacalhau à espanhola e perguntado o resultado do Vitória. Morreu e isso basta.
A autópsia não lhe devolve a vida. Não lhe aumenta a conta bancária. Nem acrescenta gramas à caixa do ouro.
A autópsia gera revolta. Insultos antes do luto. Com o corpo ainda quente na maca no corredor das urgências..
No norte, há quem vele os corpos, ainda nas salas de casa. Desmontam-se mesas, arrastam-se cadeiras e dá-se espaço à urna. Porque esta era a vontade do morto.
As famílias compram em vida o espaço de terra no cemitério. Os cemitérios lotaram. E agora não há dinheiro para ampliações. Quem não comprou, não tem terra onde se enterre.
Não há crematórios. E se os há não deitam fumo. Não têm uso.
As pessoas não querem cinzas, no norte.
E não, eu não enlouqueci. Estou só a trabalhar numa reportagem sobre o tema.